As cantigas de ninar
Edição e Pesquisa de Lenise Resende

"O acalanto, canção ingênua, sobre uma melodia muito simples, com que as mães ninam os filhos, é uma das formas mais rudimentares do canto, não raro com uma letra onomatopaica (com palavras cujo som tenta imitar o que significa), de forma a favorecer a necessária monotonia, que leva a criança a adormecer. " (Renato Almeida, História da Música Brasileira).

Os acalantos ou cantigas de ninar, conhecidos em Portugal como canções de berço ou de embalar são cantados pelas mães do mundo todo para adormecer seus filhos. Nomes das cantigas de ninar em outros países: Estados Unidos e Inglaterra (lullaby); Suécia (lula); Dinamarca (lulle); Holanda (lullen); Polônia (kalebka); França (berceuse); Itália (cantilena ou nane); Alemanha (wiegezang); Bulgária (iulkova piesen); Rússia (kolybethnaia piecnh); Japão (komoriuta); Chile (rurrupatas); Espanha (cancion de cuña); Romênia (cantec de legan).

Em "Cantigas de ninar: origens remotas", Mário Souto Maior relata: "Muito embora não se tenha conhecimento de como, quando e onde surgiu a primeira cantiga de ninar, sabemos que o poeta romano Pérsio, no primeiro século da era em que vivemos, já falava de sua existência; o mesmo acontecendo com outro poeta, Ausônio, também romano, que viveu no século IV depois de Cristo, que chegou a recomendar a Sexto Petrônio, que acostumasse seu filho a ouvir as estórias contadas por sua ama, bem como os acalantos."

1) Origem - A maioria das cantigas de ninar conhecidas no Brasil tem origem portuguesa. E, em muitas delas, o menino Jesus e seus pais são citados.

1.a- Calai-vos, meu Menino, / que a Sra logo vem / foi lavar os cueirinho / à fontinha de Belém
1.b- Cala, cala meu menino, / que a mãezinha logo vem / foi lavar os cueirinhos / à fontinha de Belém.
1.c- Dorme, dorme, meu menino, / que a mãezinha logo vem / foi lavar os teus paninhos, / à fontinha de Belém.
1.d- Dorme filhinho, / que mãezinha logo vem, / foi lavar sua roupinha / na pocinha de Belém
1.e- Dorme filhinho, / dorme meu amor, / que a faca que corta / dá talho sem dor.
1.f- Nanai, meu menino, / nanai, meu amor, / que a faca que corta / dá talho sem dor.
1.g- Não chore, meu menino, / não chore, meu amor / que a faca que corta / dá golpes sem dor.
1.h- O menino tem soninho, / e o seu sono não quer vir / venham os anjinhos do céu / ajudá-lo a dormir.
1.i- Sra Santana / Senhor São Joaquim / acalentai esse menino / que o sono não quer "vim".
1.j- Sra Santana / na beira do rio / lavava os paninhos / do seu bento filho.
1.k- Estava Maria / na beira do rio / lavando os paninhos / do seu bento filho.
1.l- Maria lavava, / José estendia, / chorava o Menino / do frio que sentia. (in O Natal e as cantigas de ninar, Guilherme S. Neves, 1950)
1.m- A Sra lavava, / São José estendia, / o Menino chorava / do frio que fazia.
1.n - Embala, José, embala / que a Sra logo vem / foi lavar um cueirinho / no riacho de Belém.
1.o- Maria e José / vão para Belém / levando o Menino / que eles querem bem.
1.p- Sra Santana / ninai minha filha / vede que lindeza / e que maravilha.
1.q- Sra Santana / ninai vossa filha / enquanto ela dorme / não faz maravilha // Esta menina não / dorme na cama / dorme nos braços / de Sra Santana. (in Cantigas de minha infância, Alberto Silva, 1957)
1.r- Menino pequeno / que dorme na cama/ dorme no regaço/ de Sra Santana.
1.s- Dorme, dorme, meu filhinho / é noite, papai já veio / Teu maninho também dorme / embalado no meu seio. // Dorme, dorme, meu filhinho / que as aves já estão dormindo / E as estrelas cintilantes / lá no céu estão luzindo // Anunciando que horas / o galo cucaricou / E lá na torre da igreja / a mesma hora soou. (in Cantigas de minha infância, Alberto Silva, 1957)

2) Acordei de madrugada (I woke up very early)
- Segundo Câmara Cascudo é um antigo canto laudatório (que louva) português, ainda cantado no norte de Portugal, que é cantado como letra de ronda infantil no Nordeste do Brasil e Minas Gerais. Variantes da Letra:

2.a- Acordei de madrugada, / Fui varrer a Conceição, / Encontrei Nossa Sra / Com seu raminho na mão. // Eu lhe pedi um raminho, / Ela me disse que não, / Eu lhe tornei a pedir, / Ela me deu seu cordão. // Numa ponta Sto Antônio, / Noutra ponta São João, / No meio Nossa Sra / Com seu lencinho na mão. (in Os meus brinquedos, Figueiredo Pimentel, 1959)
2.b- Levantei de madrugada / Fui varrer a Conceição, / Encontrei Nossa Sra / Com ramo d'ouro na mão. // Eu pedi-lhe o seu raminho, / Ela me disse que não, / Eu tornei a lhe pedir, / E ela me deu o seu cordão. // Sto Antônio e São João / Desatei esse cordão / Que me deu Nossa Sra / Com a sua branca mão. (in Música na Escola Primária, MEC, 1962)
2.c- Acordei de madrugada, / Fui varrer a Conceição, / Encontrei Nossa Sra / Com seu raminho na mão. // Eu pedi-lhe o seu raminho, / Ela me disse que não, / Eu tornei a lhe pedir, / E ela me deu o seu cordão. // O cordão de sete voltas / Que transpassa o coração / Numa ponta tem São Pedro / Noutra ponta São João // Sto Antônio, S. Francisco / Desatai este cordão / Que me deu Nossa Sra / Com a sua santa mão. (in Música na Escola Primária, MEC, 1962)
2.d- Acordei de madrugada, / Fui varrer a Conceição, / Encontrei Nossa Sra / Com seu raminho na mão. // Eu pedi-lhe o seu raminho, / Ela me disse que não, / Eu tornei a lhe pedir, / E ela me deu o seu cordão. // O cordão de sete voltas / Que trespassa o coração / O cordão de sete voltas / Que trespassa o coração // Sto Antônio, S. Francisco, / Desatai este cordão, / Que me deu Nossa Sra / Com a sua benta mão! (in Villa-Lobos: Piano Music, vol. 5, Guia Prático I-IX)
2.e- I woke up very early / to sweep the Conceição church, / and there I found Our Lady / with a little sprig in Her hand. // I asked Her for the sprig, / but She said "no"; / I asked for it again / and She gave me a cord instead. // The seven-turned cord / that binds Her heart; / the seven-turned cord / that binds Her heart. // St. Anthony, St. Francis, / please untie this cord, / which Our Lady gave me / with Her blessed hand! (in Villa-Lobos: Piano Music, vol. 5, Guia Prático I-IX)
2.f- Acordei de manhã cedo, / Fui varrer a Conceição, / Encontrei Nossa Sra / Com um raminho na mão. // Eu lhe pedi um galhinho, / Ela me disse que não / Eu lhe tornei a pedir, / Ela me deu seu cordão // Minha velha tecedeira, / Destecei este cordão / Que me deu Nossa Sra, / Virgem Mãe da Conceição. // Ela me deu um lencinho / Bordado por sua mão, / Numa ponta tem São Pedro, / Na outra tem São João, / No meio tem um letreiro / Da Virgem da Conceição. (in Acordei de manhã cedo, fui varrer a Conceição, Guilherme S. Neves, A Gazeta, Vitória, 1957)
2.g- Levantei de madrugada / Fui varrer a Conceição / Encontrei Nossa Sra / Com ramo d'ouro na mão. // Eu lhe pedi um galhinho, / Ela me disse que não; / Eu tornei a lhe pedir / Ela me deu seu cordão // Um cordão de quatro voltas / Ao redor do coração. / Lá vai ela, lá vai ela / Por detrás daquela serra. / Com sua capa amarela / Que lhe deu a Madalena, // Madalena escreveu / Uma carta a Jesus Cristo, / O portador que a levou / Foi o padre São Francisco. // Ele vai vestidinho, / Vestidinho de burel*; / Vai arreceber as chagas / Do Divino Manuel." (in Acordei de manhã cedo, fui varrer a Conceição, Guilherme S. Neves, A Gazeta, Vitória, 1957) * burel - hábito de religioso
2.h- Pus-me a pé de madrugada / Fui varrer a Conceição, / Encontrei Nossa Sra / Co'um ramo d'oiro na mão. / Eu pedi-lhe uma folhinha / Ela disse-me que não / Eu tornei-lhe a repetir ........ / Ela deu-me o seu coração, / Que me dava doze voltas / Ao redor do coração, / Que me dava outras tantas / Até me chegar ao chão. // Em louvor de São Franscico / Aceitai-me este cordão. / Que me deu Nossa Sra / Sexta-feira da Paixão, / Sábado de Aleluia, Domingo da Ressureição. (in Tradições populares de Entre-Douro-Minho, Joaquim e Fernando P. de Lima, Barcelos, 1938)
2.i- Pus-me a pé de madrugada / E fui ver a Conceição / Encontrei Nossa Sra / Com um ramo d'ouro na mão. // Eu pedi-lhe um bocadinho / E ela disse-me que não. / Eu tornei-lhe a pedir / E ela deu-me o seu cordão. // Ó Senhor Padre Francisco, / Aceite-me este cordão, / Que me deu Nossa Sra / Sexta-feira da Paixão; / Ainda me deu mais um lenço / Bordado por sua mão; // Numa ponta tem Sta Ana, / Noutra ponta São João, / No meio do retrato Da Virgem da Conceição. (in Tradições populares de Entre-Douro-Minho, Joaquim e Fernando P. de Lima, Barcelos, 1938)

Midi da cantiga - Acordei de madrugada

3) Brasil Colônia - No Brasil colonial, cantigas de ninar brasileiras eram cantadas pelas escravas que criavam e amamentavam as crianças.

3.a- Cala a boca, iaiazinha, / que seu pai já vem já, já / foi buscar timão* de seda, / forrado de tafetá. (* timão - camisola comprida)
3.b- Tutu vá s’embora / pra cima do telhado, / deixa o nhonhô / dormir sossegado. (in Achegas ao estudo do folclore brasileiro, Alfredo do V. Cabral, MEC, 1950)
3.c- Boi, boi, boi / boi da cara preta / pega este menino / que tem medo de careta // Não, não, não / não coitadinho / ele está chorando / mas é tão bonitinho.
3.d- Boi, boi, boi / boi da cara preta / pega este menino / que tem medo de careta // Ele não, ele não / ele não coitadinho / ainda que chore / mas é bonitinho. (in Cantigas de minha infância, Alberto Silva, 1957)
3.e- Boi, boi, boi / boi da cara preta / vem pegá o nenem / que tem medo de careta // Não, não, não pega ele não / ele é bonitinho / ele chora coitadinho.
3.f- Boi, boi, boi / boi da cara malhada / nina essa menina / que não tem medo de nada.
3.g- Boi, boi, boi / boi do meu sertão / pega este menino / pra levar no teu surrão*. (* surrão - bolsa ou saco de couro usado para guardar o farnel de pastores)
3.h- Boi, boi, boi / boi do Piauí / pega este menino / que não quer dormir.

Midi da cantiga - Boi da cara preta

4) Tutu - Gerações seguidas de brasileiros foram embaladas com cantigas sobre o Tutu ou Bicho-papão, que é idêntico ao Papão e a Coca de Portugal. O Papão é um ser imaginário com que se mete medo nas crianças. A Cuca, Coca ou Coco é uma mulher feia e velha, uma bruxa, um jacaré ou coruja que assombra crianças do Brasil, Portugal, Espanha e alguns países africanos.

4.a- Tutu sossegue, / vá dormir seu sono / está com medo diga / qué dinheiro tome.
4.b- Ei seu, sossegue, / vá dormir seu sono / está com medo diga / qué dinheiro tome. (in Cantigas de minha infância, Alberto Silva, 1957)
4.c- Tutu marambá / não venhas mais cá / que o pai do menino / te manda matar. (in Música na Escola Primária, MEC, 1962)
4.d- Tutu maramabaia vai-te embora / sai de cima do telhado / deixa o menino dormir / seu soninho sossegado.
4.e- Tu-tu-ru-tu-tu / lá detrás do murundu * / teu pai e tua mãe / que te comam com angu. (in Cantos populares do Brasil, Sílvio Romero) * murundu - pequeno monte, montículo.
4.f- João Curutú / detrás do murundu / levai este menino / pra comer angu. (in Os meus brinquedos, Figueiredo Pimentel, 1959)
4.g- Xô, xô, pavão / sai de cima do telhado / deixe meu filho dormir / seu soninho sossegado. (in Cantigas de ninar: origens remotas, Mário Souto Maior)
4.h- Bicho-papão / sai de cima do telhado / deixa o menino / dormir sossegado. (in Música na Escola Primária, MEC, 1962)
4.i- Vai-te papão, vai-te embora / de cima desse telhado, / deixa dormir o menino / um soninho descansado.
4.j- Vai-te, coca, sai daqui / para cima do telhado / deixa o menino / dormir sossegado.
4.k- Nana, neném / que a cuca vem pegar / papai tá na roça / mamãe foi cozinhar.
4.l- Dorme, neném / se não a cuca vem / papai foi pra roça / mamãe logo vem. (in Geografia dos mitos do Brasil, Luís da Câmara Cascudo)

5) Caiumba

Vamos atrás da Sé / Caiumba / Em casa de sinhá Tetá / Ó, Caiumba / Ver a mulatinha / Ó, Caiumba / Da cara queimada / Ó, Caiumba / Quem foi que a queimou / Ó, Caiumba / Foi sua senhora / Ó, Caiumba / Pelos peixinhos fritos / Ó, Caiumba / Que estavam na cantareira / Ó, Caiumba / Que o gato comeu / Ó, Caiumba / Q'é do gato? / Ó, Caiumba / Fugiu pro mato / Ó, Caiumba / Cadê o mato? / Ó, Caiumba / O fogo queimou / Ó, Caiumba / Cadê o fogo? / Ó, Caiumba / Água apagou / Ó, Caiumba / Cadê a água? / Ó, Caiumba / O boi bebeu / Ó, Caiumba / Cadê o boi? / Ó, Caiumba / Está garreando milho / Ó, Caiumba / Cadê o milho? / Ó, Caiumba / A galinha comeu / Ó, Caiumba / Cadê a galinha? / Ó, Caiumba / Está pondo ovo / Ó, Caiumba / Cadê os ovos? / Ó, Caiumba / O frade bebeu / Ó, Caiumba / Cadê o frade? / Ó, Caiumba / Está dizendo missa / Cadê a missa? / Ó, Caiumba (in Achegas ao estudo do folclore brasileiro, Alfredo do V. Cabral, MEC, 1950)

Fontes: Arquivo pessoal; Dicionário de Folclore para Estudantes; Jangada Brasil

***

Acalanto
(Dorival Caymmi)

É tão tarde, a manhã já vem / Todos dormem, a noite também
Só eu velo por você meu bem / Dorme anjo, o boi pega neném.

Lá no céu deixam de cantar / Os anjinhos foram se deitar
Mamãezinha precisa descansar / Dorme, anjo, papai vai lhe ninar.

Boi, boi, boi, boi da cara preta / Pega essa menina que tem medo de careta. 

 





 



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