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Design de Lenise
Resende
Lendas Indígenas 2
Edição e Pesquisa de Lenise Resende
a) O princípio do mundo
- Todas as coisas estavam envoltas numa
escuridão impenetrável; uma neblina densa cobria
a terra. Saíram das trevas dois índios: um,
Caruçacahy (Caru), grande e corpulento; outro,
Rairu seu filho. Descuidadamente, Rairu
tropeçou. Ficou furioso. Tinha pisado numa casca
de tartaruga. O pai tomou-a: "Leve-a nas
costas!" Ordenou ao moço. O índio obedeceu e foi
andando. A casca de tartaruga foi, aos poucos,
aumentando de tamanho até que ele não pode mais
suportá-la. Quando pensava que seria esmagado, a
casca subiu: transformou-se no céu. Logo nasceu
o sol. Teve uma filha, a lua, brilhante e muito
branca a qual gerou as estrelas. Rairu aprendia
depressa e observava tudo ao seu redor. Em pouco
tempo, sabia mais do que o pai. Por isso, Caru
não gostava dele e vivia pensando em matá-lo.
Certa vez, encontrando um tucumanzeiro, atirou
uma flecha acertando bem no alto da árvore. "Rairu,
vai buscar a flecha!" O moço atendeu. O
tucumanzeiro guardou seus espinhos para não
machucá-lo. Caru tremia de raiva, mas não disse
nada. Daí a uns dias cortou o tronco de outra
árvore; empurrou-o, deixando-o cair em cima do
filho e foi-se embora. Ao amanhecer do dia
seguinte, o jovem estava bom. Nada lhe havia
acontecido. O índio Caru não desistiu. Tentou
mais uma porção de meios. Pôs fogo na mata,
construiu armadilhas... Era inútil. Um dia, fez
um tatu com folhas e gravetos. Untou-o com
resina e mandou que o rapaz o agarrasse. O tatu
escavou o solo e desapareceu, puxando Rairu que
ficara preso pela cola. Quando já estavam bem no
fundo, o moço libertou-se e retornou à
superfície. Vendo, que o pai, irado, erguia o
chicote, gritou: "Não! Encontrei gente na terra.
São bons para trabalhar." Do buraco do tatu,
surgiram homens. Rairu espremeu folhas e raízes;
preparou tintas de varias cores: verde, amarelo,
azul, vermelho... Pôs-se a pintar aquela gente.
Fez isso tão vagarosamente que alguns
adormeceram. Caru separou-os: "Por terdes
dormido, sereis animais: passarinhos, macacos,
morcegos, borboletas..." Depois falou aos que
permaneceram acordados: "Sereis homens! Vossos
filhos serão guerreiros corajosos!" Assim que
terminou de falar, sumiu pela terra. Nunca mais
voltou. Chamaram a esse lugar Caru-cupi. (Lendas
Indígenas - Gráfica Ed. Aquarela, SP, 1962)
b) Origem dos homens (lenda Pareci) - Num
lugar que os nossos antepassados conheciam como
Ponte de Pedra, bem longe daqui, surgiu um dia
Enorê, o chefe supremo. Estava alegre e
satisfeito. Queria fazer alguma coisa boa.
Escolheu uma árvore bem forte, que já havia
resistido as piores tempestades e continuava de
pé. Arrancou um dos galhos mais grossos,
fincou-o no chão e, trabalhando depressa,
começou a esculpir uma figura de homem.
Terminando, bateu-lhe com uma varinha;
transformou a figura em um homem vivo. Feliz com
o resultado, decidiu prosseguir. Andou um pouco
e achou uma árvore de madeira macia. Subiu,
tirou um galho menor e pôs-se a esculpir outra
figura. Tocou-a com uma flor para perfumá-la.
Pronto! Tinha formado a mulher. Chamou os dois e
entregou-lhes a terra. Deviam viver nela,
cultivá-la comer as frutas, caçar, pescar...
Depois, retornou à sua morada, deixando-os
sozinhos. O casal viveu muitos anos. O solo era
fértil e a caça abundante. Tiveram filhos. O
primeiro foi um menino, um curumim, Zaluiê.
Nasceu também uma filhinha, meiga e delicada,
Hôhôlaialô. Que vida sossegada! Na floresta,
podiam obter frutos gostosos e todo o alimento
de que precisavam. Plantavam e as colheitas eram
boas. Passados alguns anos, nasceram Kamaikorê,
outro curumim, e Uhairiru. As crianças foram
crescendo; os meninos tornaram-se guerreiros
corajosos. Caminhavam pelas matas, sem temer os
animais ferozes. Enorê ordenou a Zaluiê e a
Kamaikorê que se dirigissem a sua casa. Ia
repartir entre eles os bens do mundo. Os moços
chegaram. O chefe supremo mostrou-lhes as coisas
boas. Zaluiê recusou os animais domésticos e as
lanças. "As lanças são muito pesadas! Os animais
deixam a taba suja!" Explicou ele. Quero o arco
e a flecha e instrumentos de música para
distrair-me e celebrar as vitórias sobre meus
inimigos. "Eu fico com as lanças e os animais
domésticos!" Atalhou logo Kamaikorê, percebendo
o erro do irmão. Enorê fez assim como haviam
pedido. Zaluiê partiu com o arco e as flechas.
Kamaikorê escolhera sabiamente. Seus bens
deram-lhe força e tornaram-no rico. Pode, com
eles, conquistar o mundo e dominá-lo. Seus
filhos foram felizes. (Lendas Indígenas -
Gráfica Ed. Aquarela, SP, 1962)
c) Origem dos índios Arara - "... Para
eles, quando essa vida ainda não havia começado,
existiam somente o céu e a água. Separando-os,
uma pequena casca que recobria o céu e servia de
assoalho a seus habitantes. Na casca do céu a
vida era plena, pois havia de tudo para todos. A
boa humanidade, protegida pela divindade
Akuanduba, vivia conforme as coisas básicas da
vida: acordar, comer, beber, namorar, dormir. Se
alguém cometesse algum excesso, contrariando as
normas, a divindade fazia soar uma pequena
flauta, chamando a atenção de todos para que se
comportassem de acordo com a boa ordem. Fora da
casca do céu, existiam coisas ruins, seres
atrozes e espíritos maléficos, contra os quais a
boa humanidade estava protegida por Akuanduba.
Houve um dia, no entanto, que ocorreu uma grande
briga da qual participou muita gente. A
divindade fez soar a flauta, mas a multidão
teimosa não quis parar de brigar. Nessa
confusão, a casca do céu se rompeu, lançando
tudo e todos para longe, para dentro da água que
envolvia a casca. Com a queda, todos perderam e
todos os velhos e crianças morreram, restando
apenas uns poucos homens e mulheres. Dos
sobreviventes, alguns foram levados de volta ao
céu por pássaros amazônicos, onde se
transformaram em estrelas. Os que ficaram, foram
abandonados pelos pássaros nos pedaços da casca
do céu que caíram sobre as águas. Assim,
surgiram os Araras que, para se manter afastados
das águas, escolheram ocupar o interior da
floresta. Até hoje, os Arara, habitantes do vale
dos rios Iriri-Xingu, no Estado do Pará,
assobiam chamando as araras quando as vêem
voando em bandos por sobre a floresta. Quando
pousam no alto das árvores, as araras, por sua
vez, observam os índios e, ao notarem o quanto
eles cresceram, desistem de levá-los de volta ao
céu. Aqui já foram deixados outras vezes e aqui
deverão permanecer. Os Arara, que antes viviam
como estrelas, estão agora condenados a viver
como gente, tendo que perseguir o alimento de
cada dia em meio aos perigos que existem sobre o
chão." (Ieipari - Sacrifício e Vida Social Entre
Os Índios Arara, Márnio Teixeira Pinto, Ed.
UFPR, 1997)
d) Origem dos Kaingang - A tradição dos
Kaingang afirma que os primeiros da sua nação
saíram do solo; por isso têm cor de terra. Numa
serra, ... no sudeste do Paraná, dizem eles que
ainda hoje podem ser vistos os buracos pelos
quais subiram. Uma parte deles permaneceu
subterrânea; essa parte se conserva até hoje lá
e a ela se vão reunir as almas dos que morrem,
aqui em cima. Eles saíram em dois grupos
chefiados por dois irmãos, Kanyerú e Kamé. Cada
um já trouxe consigo um grupo de gente. Kanyerú
saiu primeiro. Dizem que Kanyerú e toda a sua
gente eram de corpo delgado, pés pequenos,
ligeiros, tanto nos seus movimentos como nas
suas resoluções, cheios de iniciativa, mas de
pouca persistência. Kamé e seus companheiros,
pelo contrário, eram de corpo grosso, pés
grandes, e vagarosos nos seus movimentos e
resoluções. (lenda coletada por Curt Nimuendaju,
Revista do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, 1986)
e) Origem dos Carajás - Segundo a lenda,
os carajás habitavam um túnel subterrâneo. Certa
vez, um dos carajás sentiu-se mal e saiu do
túnel para vomitar. Após ter melhorado, andou
por perto da entrada de sua moradia. Achou favo
de mel, provou, gostou e levou um pouco para
seus companheiros. Todos se deliciaram com o
mel. No outro dia, o carajá voltou, arrancou
mais mel e provou da mangaba. Entusiasmado,
levou tudo para o túnel. Todos comeram e
gostaram. Aí, todos quiseram vir para fora do
túnel, para provar as delícias que o mundo
oferecia. É assim que a lenda carajá conta o
surgimento da sua tribo.
f) Amao (lenda Manao) - Amao é a
personagem divina que ensinou aos indíos Manaos,
do rio Negro (Amazonas) o processo de fazer
beiju, farinha de mandioca, farinha de tapioca e
várias outras coisas. Depois desapareceu para
sempre. Brandão de Amorim (Lendas em Nheengatu e
Português) ouviu a lenda em nheengatu: “No
princípio do mundo, contam, apareceu entre
outras criaturas uma moça bonita. Não sabia de
homem, seu nome era Amao. Uma tarde Amao foi
para a beira do rio e aí sentou-se. No mesmo
momento, passou perto dela, uma porção de
peixes, a pele deles brilhava de verdade. Ela
meteu a mão no rio, pegou um peixe. O peixe
fez-se forte na mão dela, pulou direto na sua
concha, furou-a, depois tornou a saltar para o
rio. Desde aí sua barriga foi crescendo, quando
chegou madureza de sua lua, ela teve um menino.
A criança já tinha duas luas, quando a mãe foi
pescar de puçá na cabeça da correnteza. O menino
ela deixou deitado em cima da pedra. Já era
meio-dia, Amao foi ver o menino, encontrou-o já
morto. Carregou seu corpo, chorou durante a
noite. Quando o sol apareceu, o menino falou:
"Minha mãe, repara como os animais e pássaros
estão rindo de nós. Eles mesmos me espantaram
para eu morrer. Agora, para eles não
escarnecerem de ti, defuma-os com resina para
virarem pedra." Assim ele falou. Já com a tarde,
Amao enterrou seu filho, à meia-noite virou em
pedra todos os animais. De manhã, contam,
cururu, cujubim, pássaro-pajé, lontra, estavam
já de pedra. Cobra-grande, raia, taiaçu, tapir
somente não viraram de pedra porque foram comer
para a cabeceira. Amao voou logo para a
cabeceira, passou em cima duma pedra grande, aí
encontrou taiaçu e tapir dormindo. Amao surrou
primeiro no tapir, depois no taiaçu, morreram
ambos. Depois retalhou o tapir e o taiaçu, jogou
a carne deles no rio. Deixou somente uma coxa do
tapir, outra do taiaçu em cima da pedra; aí as
virou em pedra. Como cobra-grande e raia estavam
comendo no fundo d’água, ela fez um laço na
beira do rio para agarrá-las. Já noite grande
ouviu uma coisa batendo no laço, foi ver,
encontrou a cobra-grande com a raia. Jogou nelas
resina, viraram pedra imediatamente. Depois
voltou para ensinar todos os trabalhos à gente
da terra dela. Montou um forno, mostrou como
gente faz beiju, farinha, farinha de tapioca,
porção de coisas. Depois de ensinar tudo, Amao
sumiu-se desta terra, ninguém sabe para onde!”
(Dicionário do Folclore Brasileiro, Câmara
Cascudo, RJ) Nota: Manaus, o nome capital do
estado do Amazonas, é alusão aos índios Manaos
que habitavam a região.
g) As Amazonas - Amazonas ou Icamiabas,
eram mulheres altas, brancas e com longos
cabelos trançados até a cintura e que andavam
nuas pela floresta. A aldeia era formada
exclusivamente por essas mulheres, sem a
presença masculina. Elas eram consideradas
guerreiras belicosas, exímias pescadoras e
caçadoras. Formavam uma sociedade
auto-suficiente, chefiada por uma sacerdotisa.
Como o poder só podia ser exercido por uma
virgem que tivesse até 25 anos, o comando era
trocado com freqüência. O homem era tolerado
apenas uma vez por ano, para cumprir um único
papel: o de reprodutor. A fecundação acontecia
sempre no mês de abril, durante a Lua Cheia. Os
homens eram raptados das aldeias próximas e os
que lhes davam filhas recebiam um amuleto de boa
sorte como retribuição, o muiraquitã, feito de
um material esverdeado, em forma de pequenos
animais. Em compensação, quando nasciam meninos,
os bebês eram imediatamente devolvidos aos pais,
ou simplesmente mortos. Só as meninas eram
criadas pelas Amazonas. (Enciclopédia Amazonlife)
h) As Icamiabas e o Muiraquitã - Conta a
lenda que há 400 ou 600 anos existia na região
Amazônica uma tribo formada somente por
mulheres. As Icamiabas eram guerreiras e tinham
fama de bravas e invencíveis lutadoras. Caçavam,
lutavam, adoravam seus deuses e não necessitavam
da presença masculina. Com o tempo, ficaram
conhecidas como as Amazonas. Porém, para que a
tribo se expandisse, em determinadas épocas, nas
festas, era permitida a entrada de homens de
tribos vizinhas. Os casamentos se realizavam nas
últimas noites. As mulheres caminhavam até as
margens dos lagos, cantando, e mergulhavam para
encontrarem-se com a Mãe Muiraquitã. De suas
mãos recebiam uma substância de cor verde, onde
esculpiam pequenas figuras e as entregavam aos
maridos como amuletos para protegê-los de
diversos perigos: os muiraquitãs. Com o
nascimento das crianças, os meninos eram mortos
e as meninas eram educadas para a guerra. Até
hoje os muiraquitãs são encontrados na região,
sem que ninguém saiba explicar de onde vieram.
(Lendas e Mitos do Folclore Brasileiro, ad. de
Valquiria della Pozza, Ed. Ridell Ltda)
i) Muiraquitã - [Muiraquitá, Murakitã,
Tuxáua-ita (Tupi), Ninací (Tucanos)] "É uma das
crendices mais interessantes este pequeno
amuleto de jade. Ainda hoje, para muitos, o
muiraquitã é uma pedra sagrada - escreve Barbosa
Rodrigues, - tanto que o indivíduo, que o traz
no pescoço, entrando em casa de algum tapuio, se
disser: "muyrakitan katu", é logo muito bem
recebido, respeitado e consegue tudo o que
quer". (Vocabulário de Crendices Amazônicas,
Osvaldo Orico); "De todos os amuletos indígenas,
esse parece ser um dos mais conceituados e é
investido de enorme poder. A forma mais
conhecida desses amuletos líticos é a de uma
pequena rã, mas também pode ser encontrado sob a
aparência de uma tartaruga ou outro bicho.
Entretanto, é interessante observar que o
muiraquitã está sempre zoomorficamente
relacionado com a água, sendo que a rãzinha ou
perereca, na crença indígena, é a causadora das
chuvas, guardiã das águas pluviais. Os indígenas
do Amazonas a chamam de "mãe-da-chuva". (Painel
de Mitos & Lendas da Amazônia, Franz K. Pereira,
Belém, 1994) |