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Resende
Lendas
Indígenas 1
Edição e Pesquisa de Lenise Resende
As lendas são relatos anônimos que tentam
explicar os fatos e mistérios da vida por meio
de fatos heróicos ou sobrenaturais, geralmente
misturando realidade e fantasia. Antigas lendas
indígenas explicam a criação dos homens, das
estrelas, dos animais e de alimentos.
a) As lendas e mitos indígenas
(texto de Domingos Demasi)
- Ao observar um eclipse, você encara
normalmente, por causa das informações que tem
sobre esse fenômeno astronômico. Não se assusta,
não imagina coisas fantásticas e nem procura
outra explicação, além da científica, para a
ocultação parcial ou total da Lua ou do Sol.
Agora imagine um ser humano primitivo observando
o mesmo fenômeno pela primeira vez. Como não tem
as informações que você tem, ele vai buscar uma
explicação para o eclipse no fantástico, na
superstição e nas crendices de seu universo
cultural. Para ele, o sumiço da Lua ou do Sol
pode ter ocorrido porque foram devorados por um
monstro gigantesco. É assim que surgem as
crendices, os mitos, as lendas. Um país como o
nosso, onde a natureza se mostra de forma
opulenta, não poderia deixar de ter uma vasta
coleção de narrativas baseadas em fenômenos
naturais. Entre elas se destacam as lendas
indígenas, histórias sempre ligadas à mata, à
caça, a feitos heróicos; enfim, à própria vida.
As lendas, que passaram de geração a geração,
procuram revelar, do ponto de vista do índio,
mistérios como a origem do homem, da noite, das
estrelas etc. Todas essas narrativas têm um
ponto em comum, a grande sensibilidade e a
beleza das histórias. E também guardam muitas
semelhanças com outros relatos antigos,
inclusive os bíblicos, como o da origem do
homem. Os índios contam que o Ser Supremo, certo
dia, cortou um pedaço de madeira, esculpiu uma
figura humana; com uma varinha, deu vários
golpes nela, e a madeira virou homem. Em
seguida, pegou uma das lascas da madeira,
repetiu a operação com a varinha... e criou a
mulher. Em outra lenda, o mundo é destruído por
um dilúvio, restando vivo apenas um casal, que
repovoou a Terra. Muitas das lendas indígenas se
confundem com outras e têm várias versões, de
acordo com o grupo cultural e com a região onde
viveu a tribo. Além disso, após o descobrimento
e durante a colonização portuguesa, muitas
dessas histórias sofreram alterações, sendo
influenciadas pelo europeu e pelo negro
africano. A Iara, a mãe d’água, uma deusa branca
de longos cabelos louros, revela claramente sua
origem. O Boto, uma espécie de golfinho de água
doce, é outro exemplo. Suas histórias
fantásticas eram narradas por navegantes muito
antes do nosso descobrimento, mas ele acabou
desembarcando na Amazônia legendária e
transformou-se no peixe que vira homem, seduz as
mulheres e volta para o fundo do rio. O Curupira
(ou Carapora), o menino de cabelos vermelhos,
corpo coberto de pêlos e pés virados para trás,
que todos conhecemos, é considerado o nosso mito
mais antigo e que tem nitidamente uma criação
livre de influências colonizadoras. Ele é uma
espécie de gênio da floresta que protege a fauna
e a flora. Aliás, protetor da natureza é que não
falta à coleção de lendas indígenas. O Boitatá é
outro protetor das matas, só que tem a forma de
uma serpente de fogo e luta contra quem promove
queimadas. O mito mais popular, entretanto, é o
Saci-Pererê, que parece em muitas lendas como um
pássaro, transformando-se, com o passar do
tempo, numa espécie de demônio de uma perna só.
Mas é um demônio sem maldade, pois, por ser
criança, se dedica apenas a molecagens. A
popularidade desse mito se deve muito a Monteiro
Lobato, que o transformou em personagem de suas
histórias do “Sitio do Picapau Amarelo”. Além do
Saci, os mitos indígenas já produziram pelo
menos mais dias obras-primas da moderna
literatura brasileira: “Macunaíma”, de Mario de
Andrade e “Cobra Norato”, de Raul Bopp, livros
que não podem deixar de ser lidos com alegria.
Mas o triste disso tudo é que, diante do que vem
ocorrendo na selva amazônica, os mitos devem
andar meio desacreditados, pois nem o Curupira
ou Boitatá têm conseguido agir para evitar tanta
destruição. (Fonte: Globinho Pesquisa, 1990)
b) Cy ou Ci (mãe) - "O indígena não concebe nada
do que existe sem mãe... Para os indígenas,
todas as coisas, entidades e forças têm origem
feminina, uma mãe, a Ci. E é natural que as
calamidades não escapem à lógica folclórica.
Henry W. Bates encontrou, na cidade de Belém, em
1851, a indicação da Mãe-da-Peste, epidemia de
febre amarela que invadira a região", escreveu o
folclorista Luís da Câmara Cascudo. E, segundo
Peregrino Júnior (Histórias da Amazônia, 1936),
"Boitatá, a Mãe-do-Fogo é, o próprio fogo ou a
substância imponderável que o sustenta e dirige,
origem do elemento, a mãe, a Ci." É freqüente
encontrarmos referências às mais diversas mães.
A Lua, Jacy (Já significa vegetal e Cy, mãe) é a
mãe dos frutos e vegetais. Quando a lua nova
aparece, os índios festejam com muita comida,
bebida, cantos e danças. A Lua, é irmã-esposa do
Sol, Guaracy (Guará significa vivente e Cy,
mãe), a Mãe dos Homens. O Sol também é chamado
de Coaraci, Coraci, Goaraci ou Gorazi. Amanacy é
a Mãe da Chuva (Amana significa chuva e Cy,
mãe); Çacy é a Mãe do Mato (Caá significa mato e
Cy, mãe); Aracy, é a mãe do dia, a aurora, a
origem dos pássaros; Se para uns as coisas
nasceram de uma Ci, para outros foi de um
buraco; o que não deixa de estar em relação, por
motivos óbvios, pois de um buraco no chão nascem
os vegetais; os bichos vivem e se reproduzem num
buraco; e de um buraco no corpo da mulher surge
um novo ser. Foi de um buraco no céu, diz uma
lenda Ianomami, que os índios desceram à terra.
Essa lenda, por sinal, é uma versão autóctone
(nativa) para o que a Bíblia chama de "a queda
do homem". (Painel de Mitos & Lendas da
Amazônia, Franz K. Pereira, Belém, 1994)
c) Ceuci (Ceucy) - Ceuci (Ceucy, Cyucy, Ceichu,
Ciyucê ou Ciuce), mãe do Jurupari, é a estrela
mais resplandecente da constelação das Plêiades
e a deusa protetora das lavouras e casas
construídas nas suas proximidades. Segundo a
lenda, Ceuci descansava à sombra da cucura,
árvore da Amazônia cujos frutos nascem em
cachos, como as uvas. Quando avistou os frutos
maduros, não resistiu, apanhou um e comeu. O
caldo escorreu por seu corpo nu e alcançou o
meio de suas coxas. Meses depois, revelou-se uma
gravidez que indignou sua tribo. Ela foi punida
com o desterro. Seu filho nasceu muito longe da
aldeia e recebeu o nome de Jurupari. Aos sete
dias de nascido, Jurupari já aparentava ter dez
anos. A fama de sua sabedoria correu rapidamente
e, para aprender com ele, os tupis iam ao lugar
onde mãe e filho moravam. Aos poucos, Jurupari
foi afastando-se da mãe. Quando restituiu o
poder aos homens que, até então, viviam em
regime matriarcal, instituiu festas onde só eles
podiam tomar parte. As mulheres que os
surpreendessem, desobedecendo essa lei, deviam
morrer. Certa noite, curiosa e com saudade do
filho, Ceuci foi espiar o cerimonial dos homens
e foi fulminada por um raio. Jurupari foi
imediatamente chamado para ressuscitá-la, mas
nada fez, pois não podia abrir precedentes em
suas leis. “Morreste mãe, porque desobedeceste à
lei de Tupã. É a lei que eu vivo a ensinar. Não
vou te ressuscitar, mas te recomendo: sobe,
bela, radiante e pura para um mundo melhor. Meu
pai vai recebê-la de braços abertos lá no céu”.
Depois de falar, ele chorou. E, como Jurupari,
filho e embaixador do Sol, chorou, sempre que há
chuva e sol ao mesmo diz-se que o espírito de
Jurupari está por perto. O corpo da deusa
reanimado e iluminado de uma estranha fulguração
subiu ao céu sentado no arco-íris. Ceuci
transformou-se na estrela mais resplandecente da
constelação das Plêiades (constelação que indica
a época certa da colheita das frutas maduras, da
caça e da pesca). Nota - Na lenda "Ceiuci a
velha gulosa" recolhida por Couto de Magalhães e
publicada em O selvagem, ele comenta: "A palavra
Ceiuci significa a constelação das Plêiades, a
que o nosso povo chama Sete Estrelas (Sete
Estrelo), e significa também velha gulosa, ou
uma fada indígena que vivia perseguida por
eterna fome."
d) Jurupari - (Juruparím, Jeropary, Jeropoari,
Yurupari, Iurupoari) Jurupari é a denominação
Tupi para um demônio particular, mas foi usada
com exclusividade pelos missionários para
designar qualquer demônio, até assumindo o lugar
do diabo cristão nos trabalhos de catequese dos
índios. Aparece em outras tribos, como os Baniva,
como Kowai ou Kóai, todavia, possui um opositor,
uma evidente criação catequética, que incorpora
os conceitos religiosos do Bem; é Inapíri-Kúri
ou Jesus Cristo. A lenda diz que o Jurupari é um
deus que veio do céu em busca de uma mulher
perfeita para ser esposa de Coaraci, o Sol, mas
não diz se ele a encontrou. Jurupari foi o maior
legislador que os indígenas conheceram... deus
reformador e legislador maia. Enquanto conviveu
com os homens, estabeleceu uma série de normas
de conduta e leis morais, instituiu a monogamia,
a higiene pessoal, através da depilação
corporal, restituiu o poder aos homens que
viviam em regime matriarcal, promoveu
modificações nos costumes e na lavoura,
instituindo, especialmente, as festas de
colheita. Algumas das leis do Jurupari
permanecem válidas até hoje e são as seguintes:
o chefe cuja mulher for estéril poderá tomar
outras para si, sob pena de perder o trono para
o mais valente; ninguém cobiçará a mulher do
outro, pagando a desobediência com a própria
vida; a mulher deverá permanecer virgem até a
puberdade e jamais prostituir-se; a mulher
casada deverá permanecer com o marido até a
morte, sem traí-lo; o marido deverá permanecer
em repouso durante uma lua, após o parto da
mulher; o homem deve sustentar-se com o trabalho
de suas mãos; é punida com a morte a mulher que
vir o Jurupari e o homem que revelar seus
segredos e seus rituais. A cerimônia do Jurupari
tem seu ritual em fins de março, coincidindo com
o período em que as águas diminuem e prenunciam
o verão, que começa em maio. Na verdade, na
Amazônia não existem inverno nem verão. O que
chamamos de inverno e verão é caracterizado
pelas chuvas, abundantes num e escassas noutro
período. (Painel de Mitos & Lendas da Amazônia,
Franz Kreuter Pereira, Belém, 1994)
e) Baíra
- Baíra, Bairi ou Bahira é a a entidade
civilizadora dos indígenas parintintins ou
cauaiuas do rio Madeira (Amazonas), de raça
tupi. Ele furtou o fogo ao urubu e mandou-o aos
seus indígenas, por intermédio do sapo. Deu as
flechas e ensinou aos parintintins a flechar de
jirau ou de escada; a caçar com visgo; a pescar
com sangab (peixe falso posto nágua para atrair
o bando); os adornos com dentes de onça, etc.
Suas aventuras têm sabor de malícia e zombaria,
lembrando o Macunaíma dos taulipangues e o
Poronominare dos barés. (Bahira e suas
Experiências, Nunes Pereira, Amazonas, 1945)
f) Poronominare é um dos deuses - heróis
ameríndios na indiária no Rio Negro no Amazonas.
Poronominare parece ter vindo da Venezuela, dos
Maipures do rio Orenoco, pelo Cassiquiari e daí
espalhado no Rio Negro e afluentes, Uaupés,
Apaporis, etc. Lembra o Macunaíma dos caribes ou
o Baíra dos indígenas parintintin do rio
Madeira, heróis bem humorados, zombeteiros e
amigos de brincar com a paciência do próximo.
(Lendas em nheengatu e em português, Antônio
Brandão de Amorim, Revista do Inst. Histórico e
Geográfico Brasileiro,RJ, 1928.)
g) Macunaíma - É um misto de deus e herói
lendário do extremo norte da Amazônia, alto Rio
Branco, área do grupo Aruaque, e foi trazido a
lume pelo grande pesquisador alemão Köch
Grúnberg. Segundo ele, Macunaíma é um herói
criador e transformador taulipáng. Sua presença
também é atestada noutros países da região, como
a Venezuela. Tal como o Jurupari, este também é
um enviado dos céus. Converteu troncos de
madeira em gente e bichos. Hernani Donato, em
seu Dicionário das Mitologias Americanas, diz
que, entre os macuxis, Macunaíma, literalmente
quer dizer: “o bom que trabalha à noite”.
Encontramos similaridade entre essa lenda e as
do Jurupari, Mavutsinim, Curu-Sacaébe, Sumé e
Bep-Kororoti, mas não há registros de rituais e
cultos a Macunaíma. A figura mais conhecida é a
de um "anti-herói", um Pedro Malasarte
tupiniquim, criada e difundida por Mário de
Andrade. Macunaíma caracteriza-se pela sua
malícia e astúcia. (Painel de Mitos & Lendas da
Amazônia, Franz Kreuter Pereira, Belém, 1994)
h) Bep-kororoti, Curu-sacaebe e Sumé •
Bep-kororoti é um herói mítico da tribo dos
Kaiapó, que transmitiu muitos conhecimentos aos
índios, disciplinando-os, ensinando-lhes a
construir casas, a se organizar e a cultivar
frutas, verduras e legumes. Esse deus herói
usava roupas semelhantes a um escafandro e uma "borduna
trovejante". • Curu-sacaebe também fez os homens e os animais
a partir de toras de madeira. • Sumé é uma figura misteriosa, que surgiu
"antes do descobrimento" e ensinou aos índios o
cultivo da terra e as regras morais. Uma
curiosidade específica de Sumé é ele ser branco
e ter desaparecido "caminhando sobre águas do
mar", em direção à Índia. As características
apontam para um pajé da raça branca. A tradição
tupi-guarani fala de um sábio e milagreiro que
veio até eles há muito tempo. Sumé gerou os
gêmeos Tamandaré (Tamendonaré) e Aricute.
(Painel de Mitos & Lendas da Amazônia, Franz
Kreuter Pereira, Belém, 1994)
i) Mavutsinim e o primeiro homem - É uma lenda
que fala da criação do homem, do Sol e da Lua.
Diz a lenda que no começo só havia ele. Ninguém
vivia com ele. Não tinha mulher, filho nem
parente. Para acabar com a sua solidão, Mavutsinim transformou uma concha em mulher e
com ela teve um filho. Os Kamaiurá acreditam que
são descendentes deste filho. De um tronco de
árvore Mavutsinim criou a mãe dos gêmeos: Sol (Kuát)
e Lua (Iaê). (Painel de Mitos & Lendas da
Amazônia, Franz Kreuter Pereira, Belém, 1994);
Outra versão da lenda diz: No princípio existia
apenas Mavutsinim, que vivia sozinho. Não tendo
família nem parentes, possuía apenas para si o
paraíso inteiro. Um dia sentiu-se muito, muito
só. Usou então de seus poderes sobrenaturais,
transformando uma concha da lagoa em uma linda
mulher e casou-se com ela. Tempos depois, nasceu
seu filho. Sem nada explicar, Mavutsinim levou a
criança à mata, de onde não mais retornaram. A
mãe, desconsolada voltou para a lagoa,
transformando-se novamente em concha. Apesar de
ninguém haver visto a criança, os índios
acreditam que do filho de Mavutsinim tenham se
originado todos os povos indígenas. |