Os músicos da cidade de Bremen
(The Bremen Town-Musicians)
Jacob e Wilhelm Grimm

 

Um vez, um asno, depois de ter servido dedicadamente o seu amo durante muitos anos, viu-se ao chegar à velhice, desprezado e maltratado. Em vista dessa ingratidão, resolveu fugir do cercado para dirigir-se a Bremen, pois tinha sabido que o burgomestre estava recrutando músicos para a banda da cidade. Como ele sabia zurrar muito bem, com certeza venceria as provas. Pelo caminho, encontrou um velho cão de caça, um gato e um galo, também aborrecidos com os respectivos donos. Todos se uniram a ele, de boa vontade, também com a esperança de serem contratados para músicos, uma vez que o cão ladrava, com voz de baixo, o gato era um magnífico barítono e o galo um excelente tenor. Juntos, os quatro encaminharam-se para Bremen, mas a noite os surpreendeu no lugar mais denso da floresta. Viram, de repente, uma luz brilhar por entre as árvores e seguiram naquela direção, ate chegar em frente de uma casa.
             
O asno foi depressa para perto da janela do andar térreo, que se achava iluminado e olhou para dentro. Lá estavam sentados uns salteadores, em torno de uma pequena mesa, cheia de iguarias e garrafas de vinho. O asno se ergueu, então, sobre o peitoril da janela. O cão subiu-lhe ao lombo, o gato sobre o lombo do cão e o galo sobre o lombo do gato. Assim colocados, apresentavam um estranho aspecto, mas pior foi quando os quatro se puseram a "cantar". Em seguida, o asno, sempre com os três companheiros às costas, quebrou a vidraça, entrou na sala e começou a galopar alegremente ao redor da mesa. Os salteadores, assustados com aquela estranha aparição, pensaram que o diabo, em carne e osso, ali surgira para agarrá-los e correram para fora da casa, indo refugiar-se na floresta. Os quatro companheiros sentaram-se, então, calmamente junto à mesa, comeram até quase rebentar, beberam até a última gota do vinho e finalmente, depois escolheram cada qual o lugar que mais lhe agradava e deitaram-se para dormir.
 
Lá pela meia noite, ao verem que tudo estava escuro e silencioso, os salteadores aproximaram-se da casa, certos de que o diabo valente, tinha ido embora. Um dos bandidos, o mais valente, entrou resoluto na sala. Dirigiu-se para a cozinha, sem acender luz e, ao ver os olhos do gato que fulguravam na escuridão, pensou que eram duas brasas e, então, tirou um fósforo e aproximou-se das supostas brasas, para acendê-lo. O gato, enfurecido, saltou sobre o infeliz e arranhou-o sem dó nem piedade. O bandido fugiu apavorado e foi tropeçar no cão, que tinha se enrodilhado perto da porta. Quando o alucinado homem tentou fugir pelo quintal, foi cair exatamente em cima do asno, que lhe aplicou um certeiro par de coices. Entrementes, o galo, que tinha acordado com aquele reboliço, ergueu aos ares o seu sonoro cocorocó. É fácil  imaginar o terror do bandoleiro, que, por fim, conseguiu alcançar os companheiros e contou-lhes que a casa se achava invadida por um grupo de desenfreados demônios. De pleno acordo, resolveram abandonar para sempre a casa e mudaram-se para lugar mais tranqüilo. Os aspirantes a músicos instalaram-se definitivamente na casa e, tendo descoberto no sótão um grande tesouro, que tinha pertencido aos bandoleiros, repartiram-no entre si, como bons amigos. Desde então, passaram a viver como grandes senhores, sem necessidade de se apresentarem ao concurso para músicos na cidade de Bremen.

Fonte: O Livro dos Nossos Filhos (vol. 1), 1959, Editora Alfa.
 

Os músicos de Bremen
(Jacob e Wilhelm Grimm)

Um homem tinha um burro que, há muito tempo, carregava sacos de milho para o moinho. O burro, porém, já estava ficando velho e não podia mais trabalhar. Por isso, o dono tencionava vendê-lo. O pobre animal, sabendo disso, pôs-se a caminho da cidade de Bremen. "Certamente poderei ser músico na cidade", pensava ele. Depois de andar um pouco, encontrou um cão deitado na estrada, arfando de cansaço. "Por que estás assim tão fatigado?" perguntou o burro. "Amigo, já estou ficando velho e, a cada dia, vou ficando mais fraco. Não posso mais caçar, por isso meu dono queria matar-me. Então, fugi, mas não sei como ganhar a vida." respondeu-lhe o cão.  "Pois bem!' lhe disse o burro. "Minha história é bem semelhante à sua. Vou tentar a vida como músico em Bremen. Venha comigo. Eu tocarei flauta e você poderá tocar tambor." O cão aceitou o convite e seguiu com o burro. Não tinham andado muito, quando encontraram um gato, muito triste, sentado no meio do caminho. "Que tristeza é essa, companheiro?" lhe perguntaram os dois. "Como posso estar alegre, se minha vida está em perigo?" respondeu o gato. "Estou ficando velho e prefiro estar sentado junto ao fogo, em vez de caçar ratos. Por esse motivo, minha dona quer me afogar." 'Ora, venha conosco a Bremen." propuseram os outros. "Seremos músicos e ganharemos muito dinheiro." O gato, depois de pensar um pouco, aderiu e acompanhou-os. Foram andando até que encontraram um galo, cantando tristemente, trepado numa cerca. "Que foi que lhe aconteceu, amigo?" perguntaram os três. "Imaginem" respondeu o galo, "que amanhã a dona da casa vai ter visitas para o jantar. Então, sem dó nem piedade, ordenou ao cozinheiro que me matasse para fazer uma canja." Os outros, então, lhe propuseram: "Nós vamos a Bremen, onde nos tornaremos músicos. Você tem boa voz. Que tal se nos reunissemos para formar um conjunto?" O galo gostou da idéia e juntou-se aos outros.

A cidade de Bremen ficava muito distante e eles tiveram que parar numa floresta para passar a noite. O burro e o cão deitaram-se em baixo de uma árvore grande. O gato e o galo alojaram-se nos galhos da árvore. O galo, que se tinha colocado bem no alto, olhando ao redor, avistou uma luzinha ao longe, sinal de que deveria haver alguma casa por ali. Disse isso aos companheiros e todos acharam melhor andar até lá, pois o abrigo ali não estava muito confortável. Começaram a andar e, cada vez mais, a luz se aproximava. Afinal, chegaram à casa. O burro, como era o maior, foi até a janela e espiou por uma fresta. À volta de uma mesa, viu quatro ladrões que comiam e bebiam. Transmitiu aos amigos o que tinha visto e ficaram todos imaginando um plano para afastar dali os homens. Por fim, resolveram aproximar-se da janela. O burro colocou-se de maneira a alcançar a borda da janela com uma das patas. O cão subiu nas costas do burro. O gato trepou nas costas do cão e o galo voou até ficar em cima do gato. Depois, a um sinal combinado, começaram a fazer sua música juntos: o burro zurrava, o cão latia, o gato miava e o galo cacarejava. A seguir, quebrando os vidros da janela, entraram pela casa a dentro, fazendo uma barulhada medonha.

Os ladrões, pensando que algum fantasma havia surgido ali, saíram correndo para a floresta. Os quatro animais sentaram-se à mesa, serviram-se de tudo e procuraram um lugar para dormir. O burro deitou-se num monte de palha, no quintal; o cão, junto da porta, como a vigiar a casa; o gato, junto ao fogão, e o galo encarapitou-se numa viga do telhado. Como estavam muito cansados, logo adormeceram. Um pouco além da meia noite, os ladrões, verificando que a luz não brilhava mais dentro da casa, resolveram voltar. O chefe do bando disse aos demais: "Não devemos ter medo!" E mandou que um entrasse primeiro para examinar a casa. Chegando à casa, o homem dirigiu-se à cozinha para acender uma vela. Tomando os olhos do gato, que brilhavam no escuro, por brasas, tentou neles acender um fósforo. O gato, entretanto, não gostou da brincadeira e avançou para ele, cuspindo-o e arranhando-o. Ele tomou um grande susto e correu para a porta dos fundos, mas o cão, que lá estava deitado, mordeu-lhe a perna. O ladrão saiu correndo para o quintal, mas, ao passar pelo burro, levou um coice. O galo, que acordara com o barulho, cantou bem alto: "Có, có, ró, có!" Sempre a correr, o ladrão foi se reunir aos outros, a quem contou: "Lá dentro há uma horrível bruxa que me arranhou com suas unhas afiadas e me cuspiu no rosto. Perto da porta, há um homem mau que me passou um canivete na perna. No quintal, há um monstro escuro, que me bateu com uma tranca (barra) de pau. Além disso tudo, no telhado está sentado um juiz, que gritou bem alto: "Traga aqui o patife!" "Acho que não devemos voltar lá!" Depois disso, nunca mais os ladrões voltaram à casa, e os quatro músicos de Bremen sentiam-se muito bem lá, onde faziam suas músicas e viviam despreocupados.
 
Fonte: O Mundo da Criança - Histórias de Fadas (Vol.3),
1949, Ed. Delta. Tradução e adaptação de Vera Braga Nunes

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