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Esta história aconteceu na
China, há muitos e muitos séculos. O maior orgulho do
poderoso imperador era seu jardim, cheio de plantas,
árvores e flores belas. As mais lindas do mundo. O
jardim do imperador era também muito grande. Tão
grande que nem ele mesmo sabia onde terminava. Muitos
escritores que visitavam os jardins do palácio
escreviam sobre ele. Eram tantos os elogios...Mas o
que todos mais admiravam era o canto de um rouxinol.
"É fantástico! É brilhante! É eletrizante!",
escreviam.
Um dia o imperador lia esses livros sobre os seus
jardins com muita atenção. Até que de repente gritou
para seus empregados: "Quero ouvir o canto do
rouxinol. Como pode essa ave exitir, se nunca a vi!".
O principal cavaleiro do reino foi procurar o rouxinol
e só o achou com a ajuda de uma menininha. A ave, que
cantava numa árvore, concordou em ir visitar o
imperador e cantar para ele. Foi uma noite maravilhosa
e o imperador chorou, ao ouvir o canto do rouxinol. A
ave ficou morando no palácio depois disso e era
tratada com muitos mimos.
Mas um dia o imperador ganhou um pássaro de dar corda,
feito de ouro e pedras preciosas, que cantava sempre a
mesma música lindamente. E não é que todos gostaram
mais desse rouxinol mecânico do que do outro, de
verdade?
O imperador mandou o rouxinol real embora do reino e
passou cinco anos ouvindo o outro. Até que um dia, o
rouxinol de corda quebrou e, mesmo depois de
consertado, só podia cantar uma vez por ano. O reino
todo ficou triste. Tão triste que o rei adoeceu.
Gravemente doente, o rei estava em sua cama, quando a
Morte apareceu, com uma espada na mão. O rei ficou com
medo, mas de repente ouviu-se um canto lindo. Era o
rouxinol (o de verdade). A Morte ficou fascinada pelo
canto do pássaro. Ele cantava uma canção sobre um
jardim. A Morte então deixou o rei viver para ir
visitar o jardim. "Obrigado, rouxinol. Fui mau com
você", disse o rei. "Você pode voltar a viver no
palácio e a ter todas as honras".
Mas o rouxinol não quis. Disse que viria sempre cantar
para o rei, mas que preferia outra coisa: "Quero ficar
livre para cantar também para o pescador, o camponês,
para pessoas tristes e felizes".
Fonte: Globinho, jornal
O Globo, 15/01/05
O rouxinol do imperador
(Hans Christian Andersen)
O palácio do
imperador da China era uma das coisas mais bonitas
que existiam no mundo. Construído em mármore branco,
possuía torres de marfim, paredes revestidas com
tecidos de cores variadas e quartos decorados com
ouro e prata. Era realmente uma maravilha! O jardim
também era de enorme beleza; nele cresciam flores
raras e belas. Havia inúmeros rios e lagos, onde
nadavam peixes de todas as espécies e tamanhos. Para
além do jardim, se estendia uma mata, que chegava
até o mar e no interior dela vivia um rouxinol de
canto único. De sua pequenina garganta saíam
melodias tão emocionantes, que faziam chorar quem as
escutasse. Turistas do mundo todo iam admirar o
palácio do imperador chinês e ficavam maravilhados
diante de tanta beleza. Mas, quando ouviam o canto
do rouxinol, todos admitiam que aquilo sim era a
coisa mais bonita e rara do grande império. Entre os
visitantes havia escritores que, ao retornar às suas
pátrias, escreviam livros a respeito do prodigioso
pássaro que vivia no centro da mata, próximo ao
palácio imperial. E dedicavam a ele os maiores
elogios, muito mais do que à maravilhosa casa do
imperador chinês.
Um dia, um daqueles livros chegou às mãos do
imperador. O soberano o leu e ficou, ao mesmo tempo,
surpreso e enfurecido. Mandou logo chamar o
primeiro-ministro. "Incrível! No bosque que faz
divisa com os jardins imperiais vive um rouxinol
cujo canto é incomparável, e eu o desconheço! Tive
que ler um livro estrangeiro para aprender que a
maior maravilha de meu país é um pássaro de voz de
ouro, e não este meu soberbo palácio! Diga-me, por
que não fui informado?" "Eu também ignorava o fato,
meu senhor", respondeu o primeiro-ministro,
assustado com a ira do imperador. "Mas vou
descobri-lo." "E que seja muito breve. Nesta noite
mesmo o rouxinol deverá cantar somente para mim."
O primeiro-ministro iniciou as buscas. Interrogou
príncipes e nobres, guardas e cavaleiros. Ninguém
sabia da existência de tal ave. Sem nada descobrir,
o primeiro-ministro voltou ao imperador: "Meu
senhor, não se consegue encontrar o rouxinol. Talvez
não exista, talvez seja apenas invenção do autor do
livro." Mas o imperador não quis explicações. Exigia
o prodigioso rouxinol! Ou naquela noite o rouxinol
cantava para a corte, ou o primeiro-ministro seria
punido. O pobre homem recomeçou a percorrer ruas e
praças, perguntando a todos sobre o tal pássaro. Por
fim, encontrou na cozinha imperial uma serviçal que
comentou: "O rouxinol… Conheço-o, sim. Às vezes, à
noite, paro no bosque para ouvir seu canto
maravilhoso. Tem uma voz tão bela e harmoniosa, que
chego a chorar de emoção." "Poderia me ajudar a
procurá-lo?" "Claro que sim, Excelência."
Imediatamente, ele mandou organizar uma comitiva de
cavaleiros e cortesãos para, sob orientação da
serviçal, ir procurar o rouxinol na mata. Estavam
andando já há algum tempo, quando se ouviu um
mugido. Os cavaleiros pararam, curiosos. "Deve ser o
rouxinol cantando. Que voz agradável!" "Esse foi o
mugido de uma vaca", riu a mulher. "O rouxinol vive
mais longe." Após longa caminhada, a serviçal parou
em frente a uma árvore e mostrou uma ave minúscula,
de plumas acastanhadas, que saltitava entre os
galhos. "Ali está, aquele é o rouxinol, o pássaro de
canto comovente." O primeiro-ministro e seu séquito
ficaram desapontados com o aspecto modesto do
rouxinol. Nem de longe sua aparência era comparável
à beleza do palácio. Porém, quando escutaram sua
voz, todos ficaram encantados. E convidaram-no para
ir à corte. O rouxinol aceitou o convite.
Foram feitos grandes preparativos para sua chegada:
flores por toda parte, assoalhos encerados e
brilhantes, e uma gaiola toda de ouro, no meio da
sala do trono, para o pequeno e ilustre cantor.
Sentado no trono, o imperador aguardava com
impaciência o momento em que escutaria as
maravilhosas melodias que todos comentavam. Assim
que chegou, o rouxinol pousou sobre a gaiola, olhou
com respeito o ilustre anfitrião - o imperador da
China - e começou a cantar. Seu canto era tão
comovente que o imperador chorou, emocionado.
Terminado o concerto, ele disse para o rouxinol:
"Fique comigo para sempre, para minha felicidade. Em
troca, terá tudo que pedir, tudo que mais o agradar!
Tudo que quiser." "Majestade", respondeu o
passarinho. "Enquanto eu cantava, vi lágrimas em
seus olhos. Isto, para mim, é a recompensa maior,
não peço mais nada. Se Vossa Majestade assim o
deseja, estou pronto para abandonar a mata e alegrar
sua vida com minha voz, sempre que quiser." E assim,
o rouxinol ficou no palácio, abrigado na gaiola de
ouro pendurada nos aposentos do imperador. Cantava
frequentemente para seu amo e uma vez por dia dava
um passeio no jardim - mas preso pela patinha a um
fio de seda conduzido pelo primeiro-ministro.
Um dia, o imperador da China recebeu um presente de
seu amigo, o imperador do Japão: um maravilhoso
rouxinol mecânico, todo de ouro. Suas asas eram
enfeitadas com diamantes, a cauda exibia safiras e
os olhos de rubis. Bastava girar uma pequena chave,
e o rouxinol mecânico cantava uma linda melodia.
Porém, o rouxinol verdadeiro cantava com o coração e
o outro, com molas e cilindros de aço. As duas vozes
não combinavam, e o imperador se aborreceu: ‘Que o
rouxinol mecânico cante sozinho!", ordenou. Trinta
vezes seguidas o belo brinquedo repetiu a mesma
melodia sem mudar uma nota sequer, entre aplausos e
elogios da corte que o ouvia. Na trigésima primeira
apresentação o imperador disse que já era o
bastante. "E agora, que cante o rouxinol
verdadeiro!", ordenou. Mas o passarinho não foi
encontrado. Aproveitando-se do descuido geral, tinha
voado pela janela aberta em direção à mata, onde
sempre vivera em total liberdade. Mas o imperador
não ficou triste, pois afinal estava satisfeito com
o rouxinol mecânico.
Para que todos os súditos admirassem seu rouxinol,
permitiu um espetáculo público. Muitos se
deslumbraram. Mas quem já ouvira a voz do rouxinol
verdadeiro, na mata, não se convenceu: "Há enorme
diferença entre os dois." Não importava a opinião
dos outros. O imperador, a cada dia que passava,
ficava mais animado com aquele extraordinário
brinquedo. O aparelhinho repousava em uma almofada
de seda, ao lado da cama do soberano, que a cada
momento lhe dava corda, contente com aquele canto
sempre igual. Certa noite, o delicado mecanismo se
rompeu, produzindo um ruído estranho. O imperador
mandou chamar um experiente relojoeiro, que
encontrou uma mola quebrada e trocou-a. Mas avisou
ao imperador que o mecanismo já estava bem gasto, e
que o rouxinol mecânico só poderia cantar uma vez
por ano, para evitar que quebrasse definitivamente.
O imperador ficou muito triste com isso, mas foi
obrigado a seguir o conselho do relojoeiro.
Passaram-se os anos, e um dia o imperador adoeceu
gravemente. Repousava entre seus lençóis de cetim e
as cobertas de seda bordadas mas, apesar de tanto
luxo, estava só. Nobres e ministros discutiam a
sucessão ao trono, médicos pesquisavam novos
remédios para receitar ao ilustre doente, a
criadagem dormia. Ninguém fazia companhia ao
enfermo. Em certo momento, o imperador abriu os
olhos e viu a Morte sentada a seu lado, em seu
assustador manto negro, encarando-o silenciosamente.
Entendeu que chegara sua última hora, e então se
virou para o rouxinol mecânico e sussurrou: "Cante,
suplico-lhe. Cante, quero escutar sua voz mais uma
vez, antes de morrer." Mas o rouxinol permaneceu
calado. Não havia ninguém que lhe desse corda, e
ele, sozinho, não podia cantar.
De repente, uma melodia muito doce, enternecedora
ressoou nos aposentos. No parapeito da janela,
estava o rouxinol verdadeiro. O passarinho soubera
da morte inevitável do imperador e viera trazer-lhe
seu consolo musical, ainda que sem ouro, brilhantes,
safiras e rubis. A Morte também se pôs a escutar
aquele doce canto e, quando o rouxinol se calou,
pediu para que continuasse. A música se espalhou
pelo amplo aposento e, a cada nota, o imperador se
sentia melhor. Enquanto isso, dona Morte foi se
afastando devagar. "Repouse, agora, Majestade",
disse com carinho o rouxinol. "Amanhã acordará
curado." E ficou ali, com seus gorjeios, entoando
uma suave canção de ninar.
No dia seguinte, ao despertar, o imperador se sentia
bem e se levantou. O rouxinol ainda estava no
parapeito da janela. "Meu salvador!" disse-lhe o
imperador. "Fui ingrato com você, ao preferir o
rouxinol mecânico. Mas agora pretendo me desculpar.
Vou destruir aquele tolo brinquedo, se quiser, mas
peço-lhe que nunca mais me abandone." "Não me peça
isso", respondeu o rouxinol. "Vou ficar com muito
gosto junto de Vossa Majestade, mas com a condição
de não me prender mais na gaiola. Deixe-me livre,
permita que eu viva nos bosques. Virei cantar sempre
que quiser, e também lhe contarei tudo o que vejo no
seu império. Assim, saberá das injustiças que devem
ser punidas, e das boas ações que merecem ser
recompensadas. Seu povo poderá ser bem mais feliz."
O imperador concordou, e o rouxinol foi embora. Mais
tarde, na hora em que os cortesãos, médicos e
empregados entraram no aposento do doente, temendo
encontrá-lo morto, viram-no em pé, alegre, feliz e
bem-disposto. E nunca souberam, nem sequer
imaginaram, o motivo de tal prodígio.
Fonte:
Alfabetização - Livro do Aluno - vol. 2 - Material
didático
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