
A festa no
céu
Versão de Alceu Maynard Araújo *
(Conto tradicional do Brasil)
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Era uma vez um Sapo muito esperto e um Urubu que
sabia tocar viola muito bem. Houve uma festa no céu,
foram convidados todos os bichos cá da terra. O
Urubu, violeiro afamado, não faltaria... as danças
dependeriam de sua marcação. Como está sempre com os
pés sujos, foi lavá-los numa lagoa e aproveitar para
tomar um gole d'água quando avistou um sapo-untanha
dorme-dormindo. E o diálogo tem inicio: "Como é
compadre Cururu, você não vai à festa no céu?" O
sapo-cururu respondeu: "Irei logo, estava tirando
uma soneca para poder me divertir a noite toda.
Quero dançar até o sol raiar..."
Enquanto o Urubu bebia água o Sapo entrou na viola
do seu compadre. O Urubu apanhou a viola e voou em
demanda da festa. Voou, voou, voou. Em chegando ao
céu é recebido com ruidosa manifestação pela
bicharada que lá em cima já se achava. Os bichos
esperavam-no para dar inicio ao forró. Antes, porém,
convidaram-no para tomar um "lava-goela". Deixou a
viola num canto do salão. O sapo safou-se da viola
sem ser visto por ninguém, enquanto todos estavam
distraídos com a recepção ao violeiro. Saiu
pula-pulando, chegando primeiro do que todos na
"ramada" (barraquinha de come e bebes). Efusivo,
recebeu-o o compadre Urubu: "Ué, Cururu, já por
aqui?" "Aqui para lhe servir, meu compadre Urubu.
Tome esta, que já faz tempo que estamos esperando
pelos baiões bem marcados, que só meu compadre sabe
tocar." O Urubu lambiscou de tudo e foi tocar viola,
acompanhando o sanfoneiro. A função prolongou-se até
ao despontar da manhã. O sapo fingiu-se de cansado,
de pernas bambas, passou ginga-gingando na frente do
compadre, foi contando que iria dormir mais cedo.
Bocejando desapareceu. Finda a função, o Urubu,
esfaimado como sempre, voltou para dar uma vistoria
na "ramada". O sapo aproveitou-se da oportunidade e
zás... Enfiou-se novamente na viola. O Urubu
despediu-se da bicharada, apanhou a viola e
regressou para terra... E pensou: "Toquei a noite
toda e a viola não estava tão pesada assim. Será que
estou cansado?"
Voou mais um pouco e procurou averiguar. Deu uma
sacudidela e eis que vê lá dentro o Cururu,
refestelado: "É você que está aí, seu malandro? Pois
de agora em diante não me logrará mais, vou lhe
pregar uma peça. Virou a boca da viola para baixo,
procurando desvencilhar-se do intruso. O Sapo, com
os olhos arregalados de medo, vendo que ia se
esborrachar no solo gritou: "Me jogue em cima de uma
pedra, não me atire na água que eu me afogo." O
Urubu ficou branco de raiva, olhou e viu pouco
distante uma lagoa e pensou: "Este trapaceiro
sem-vergonha me paga, vou lhe dar-lhe uma lição de
mestre. Voou até a lagoa e zás, derrubou seu
compadre Cururu. Crocitando e com os olhos chispando
de raiva disse: "Pois você me paga, seu cara feia,
agora eu o afogo. E assim atirou o Cururu na lagoa.
Pensou que tinha se vingado do sapo. E o espertalhão
do Cururu, lá do fundo da lagoa saiu rindo e
dizendo: "Enganei um bobo na casca do ovo." Não
presta ser vingativo, o Urubu não conseguiu o que
desejava... e foi assim que o sapo foi à festa no
céu...
*Alceu Maynard Araújo, folclorista e escritor,
nasceu em 1913, em Piracicaba, SP. Publicou os
seguintes livros sobre Folclore: Cururu (1948),
Danças e Ritos Populares de Taubaté (1948), Folia de
Reis de Cunha (1949), Rondas Infantis de Cananéia
(1952), Literatura de Cordel (1955), Ciclo Agrícola,
calendário religioso e magias ligadas às plantações
(1957), Poranduba Paulista (1958), Folclore do Mar
(1958), Medicina Rústica (1961), Novo Dicionário
Brasileiro – Verbetes de Folclore (1962), Folclore
Nacional (1964), Pentateuco Nordestino (1971).
A festa no céu
Versão de Luís da Câmara Cascudo *
(Conto etiológico tradicional do Brasil)
Entre todas as aves, espalhou-se a notícia de uma
festa no Céu. Todas as aves compareceriam e
começaram a fazer inveja aos animais e outros
bichos da terra incapazes de vôo. Imaginem quem
foi dizer que ia também à festa... O Sapo! Logo
ele, pesadão e nem sabendo dar uma carreira, seria
capaz de aparecer naquelas alturas. Pois o Sapo
disse que tinha sido convidado e que ia sem dúvida
nenhuma. Os bichos só faltaram morrer de rir. Os
pássaros, então, nem se fala! O Sapo tinha seu
plano. Na véspera, procurou o Urubu e deu uma
prosa boa, divertindo muito o dono da casa. Depois
disse: - Bem, camarada Urubu, quem é coxo parte
cedo e eu vou indo, porque o caminho é comprido. O
Urubu respondeu: - Você vai mesmo? - Se vou? Até
lá, sem falta!
Em vez de sair, o Sapo deu uma volta, entrou na
camarinha do Urubu e, vendo a viola em cima da
cama, meteu-se dentro, encolhendo-se todo. O
Urubu, mais tarde, pegou na viola, amarrou-a a
tiracolo e bateu asas para o céu, rru-rru-rru...
Chegando ao céu, o Urubu arriou a viola num canto
e foi procurar as outras aves. O Sapo botou um
olho de fora e, vendo que estava sozinho, deu um
pulo e ganhou a rua, todo satisfeito. Nem queiram
saber o espanto que as aves tiveram, vendo o Sapo
pulando no céu! Perguntaram, perguntaram, mas o
Sapo só fazia conversa mole. A festa começou e o
Sapo tomou parte de grande. Pela madrugada,
sabendo que só podia voltar do mesmo jeito da
vinda, mestre Sapo foi-se esgueirando e correu
para onde o Urubu se havia hospedado. Procurou a
viola e acomodou-se, como da outra feita. O sol
saindo, acabou-se a festa e os convidados foram
voando, cada um no seu destino.
O Urubu agarrou a viola e tocou-se para a Terra,
rru-rru-rru... Ia pelo meio do caminho, quando,
numa curva, o Sapo mexeu-se e o Urubu, espiando
para dentro do instrumento, viu o bicho lá no
escuro, todo curvado, feito uma bola. - Ah!
camarada Sapo! É assim que você vai à festa no
Céu? Deixe de ser confiado...! E, naquelas
lonjuras, emborcou a viola. O Sapo despencou-se
para baixo que vinha zunindo. E dizia, na queda: -
Béu-Béu! Se desta eu escapar, Nunca mais bodas no
céu!... E vendo as serras lá em baixo: - Arreda
pedra, se não eu te rebento! Bateu em cima das
pedras como um genipapo, espapaçando-se todo.
Ficou em pedaços. Nossa Senhora, com pena do Sapo,
juntou todos os pedaços e o Sapo enviveceu de
novo. Por isso o Sapo tem o couro todo cheio de
remendos.
Fonte: Antologia da literatura mundial - Lendas,
fábulas e apólogos
- vol IV - Seleção de Nádia Santos e Yolanda L.
Stos - Ed. Logos Ltda, SP
* Luís da Câmara Cascudo nasceu, em 1898, em Natal
(RN) onde morreu em 1986. Advogado, professor,
pesquisador, folclorista e escritor, ele recolhia
lendas e contos populares do Brasil,
relacionando-os com lendas e mitos de outros
países. Foi assim que encontrou na 13ª narrativa
do Pachatantra (a mais antiga coleção de fábulas
indianas conhecida), uma história com temática
similar ao nosso conto "A festa no céu". Trata-se
da história de "Kambugriva, uma tartaruga que
morava no lago Fulatpala, no país de Magada. Dois
gansos, Sancata e Vicata, para salvá-la da
estiagem que seca as águas do lago, levam-na pelos
ares, segura pela boca a um bastão. Vendo o
espanto dos lavradores que a olham nas nuvens,
Kambugriva abre a boca para dizer: - Que admiração
é esta? - e vem morrer aos pedaços, nos rochedos."
(Luis da Câmara Cascudo, Literatura Oral no
Brasil, Ed. Itatiaia, 1984)
Nota: A festa no céu é considerado um conto
etiológico (etiologia é a ciência da origem das
coisas), por falar da origem dos desenhos
(remendos) no couro do sapo. Existem versões que
substituem o sapo pelo jabuti.
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